O transporte é um setor de grande influência na competitividade econômica e, simultaneamente, um dos mais relevantes na agenda climática global. Em diversos países, sua participação nas emissões nacionais cresce à medida que outros setores se tornam mais eficientes ou descarbonizados. No Brasil, onde a logística é fortemente dependente do modal rodoviário, a discussão ganha ainda mais relevância: compreender onde e como as emissões são geradas é fundamental para orientar políticas públicas, investimentos empresariais e decisões táticas e operacionais de supply chain.
Cenário Global: Emissões de CO₂e no transporte
Segundo o Climate Watch, o Brasil ocupa a 6ª posição mundial nas emissões absolutas do setor de transporte. No contexto global, o transporte representa aproximadamente 16% das emissões totais. Essa participação varia significativamente entre países devido a diferenças estruturais, tecnológicas e de matriz energética.
No caso brasileiro, o setor representa 14% das emissões nacionais, percentual inferior à média global. Esse resultado não reflete, necessariamente, uma menor intensidade do transporte do país, mas sim o peso desproporcional de setores como agricultura e mudança de uso do solo, que têm grande influência no inventário nacional. Em contrapartida, economias desenvolvidas apresentam perfis distintos: o transporte representa 31% das emissões dos EUA e 26% das emissões da União Europeia, evidenciando um nível maior de maturidade energética e industrial, no qual o transporte passa a ter protagonismo relativo.
Outro indicador importante é o de emissões do transporte por PIB, no qual o Brasil apresenta desempenho relativamente pior. Isso sinaliza uma elevada dependência de modais de maior intensidade de carbono e revela um custo climático significativo associado à matriz logística nacional.

Fonte: Climate Watch, 2022 | Análises ILOS (Consulta em 04/12/2025).
Emissões no transporte brasileiro
O Inventário CNT 2025 identifica que, no ano-base 2023, o setor de transporte brasileiro emitiu 190 MtCO₂e, com clara predominância do modal rodoviário, responsável por 92,9% das emissões totais do setor. Esse padrão é consistente com a estrutura histórica da logística brasileira, caracterizada pela baixa diversificação modal e uso predominante de combustíveis fósseis.

Fonte: CNT, 2025 | Análises ILOS (Consulta em 04/12/2025).
O modal rodoviário apresenta níveis elevados de intensidade por duas razões principais: o uso massivo de combustíveis de origem fóssil, especialmente diesel e gasolina e a elevada representatividade das categorias automotivas e de transporte de cargas, que possuem grandes frotas e intensidades energéticas significativas.
Do ponto de vista da demanda por transporte, a matriz de cargas brasileira reforça esse protagonismo. Dados do ILOS (2025) mostram que a distribuição modal é composta por 63,4% rodoviário, 18,0% ferroviário, 14,6% aquaviário, 4,1% dutoviário e 0,1% aéreo. Naturalmente, essa composição direciona o impacto climático do setor para o transporte rodoviário.
Emissões por categoria de veículo: foco no transporte rodoviário
Uma análise mais granular do modal rodoviário permite identificar os segmentos críticos para a mitigação de emissões. As categorias associadas ao transporte de cargas são os principais contribuintes, com caminhões representando 34% das emissões do setor. No transporte individual, destacam-se os automóveis flex, com 30%, devido à elevada base de frota e ao consumo significativo de etanol e gasolina.
Esses resultados demonstram que, embora o transporte individual tenha grande impacto, é o transporte de cargas que concentra o maior potencial de mitigação. Isso se deve, sobretudo, ao predomínio absoluto do diesel como fonte energética e à estrutura logística brasileira, caracterizada por longas distâncias, baixa adoção de modais alternativos e limitações de infraestrutura.
A eletrificação surge como uma alternativa promissora para o longo prazo, porém sua participação atual ainda é incipiente. Barreiras como custo de aquisição, autonomia das baterias, disponibilidade de pontos de recarga e restrições operacionais limitam sua adoção massiva no curto prazo. Em paralelo, soluções intermediárias como biocombustíveis e híbridos pesados tendem a ganhar relevância.
Caminhos de Mitigação e Boas Práticas
O Brasil, como signatário do Acordo de Paris, estabeleceu metas ambiciosas na sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC): reduzir 59% a 67% das emissões líquidas até 2035 e alcançar neutralidade até 2050, em relação aos níveis de 2005. Para que o setor de transporte contribua adequadamente para esses objetivos, serão necessárias ações estruturais e operacionais em múltiplas frentes.
As estratégias incluem:
- Modernização de frotas, com incorporação de tecnologias mais eficientes e menor emissão;
- Renovação progressiva de caminhões pesados e semipesados, priorizando tecnologias de menor intensidade;
- Adoção de práticas de direção eficiente, que podem reduzir consumo e emissões de forma imediata;
- Otimização logística: redução de viagens vazias, consolidação de cargas e uso de sistemas avançados de roteirização;
- Digitalização e telemetria para acompanhamento de indicadores como CO₂e por tonelada-km;
- Expansão da multimodalidade, com estímulo a ferrovias e hidrovias, especialmente em fluxos de longa distância;
- Transição gradual para combustíveis renováveis, com papel estratégico dos biocombustíveis no curto e médio prazo;
- Eletrificação, inicialmente para frotas urbanas e operações de média previsibilidade;
- Compensação de emissões, de forma complementar, alinhada a padrões de integridade ambiental.
Essas medidas podem ser combinadas em diferentes horizontes de tempo. A curto prazo, predominam ações de eficiência e otimização. A médio prazo, destacam-se a modernização de frota e o avanço dos biocombustíveis. No longo prazo, a eletrificação e o aumento da participação de modais menos intensivos deverão moldar o novo padrão logístico brasileiro.
Conclusão
Os dados reforçam que o Brasil enfrenta um paradoxo logístico: é um país cuja matriz de transporte é altamente dependente do rodoviário — modal mais intensivo em carbono — e, ao mesmo tempo, encontra-se pressionado a reduzir emissões de forma acelerada nas próximas décadas. A predominância dos caminhões pesados e semipesados no perfil de emissões confirma que a descarbonização logística passa, necessariamente, pela transformação estrutural do modal rodoviário.
Nesse contexto, as empresas desempenham um papel decisivo. A incorporação de métricas climáticas na gestão logística, o investimento em eficiência operacional e a adoção progressiva de tecnologias de menor intensidade serão fundamentais para manter competitividade e atender às exigências da transição para uma economia de baixo carbono.
Referências:
- Inventário CNT de emissões de gases do efeito estufa do setor de transporte. – Brasília: Ambipar : CNT, 2025.
- Climate Data for Action | Climate Watch | Emissions and Policies
- NDC: Ambição climática do Brasil — Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
- https://prime.ilos.com.br/posts/matriz-de-transportes-de-carga-do-brasil
